Apesar de muitas vezes ser tratado com naturalidade, o uso indiscriminado de medicamentos e o descarte incorreto desses produtos representam riscos significativos à saúde e ao meio ambiente. Para enfrentar esse problema, instituições de ensino e órgãos públicos têm promovido ações de conscientização junto à população.
Semana reforça importância do uso consciente
Entre os dias 5 e 11 de maio, ocorre a IV Semana do Uso Racional de Medicamentos no Rio Grande do Sul, alinhada ao Dia Nacional da Campanha do Uso Racional de Medicamentos, celebrado em 5 de maio. A iniciativa busca alertar sobre os perigos do uso inadequado.
“O uso racional é aquilo que a gente faz, prescrição correta, na dose certa, para indicação correta, nos horários corretos. Então, tudo que sai fora disso, a gente pode considerar um risco”, explica Juliana Roman, farmacêutica e professora do curso de Farmácia da URI.
Segundo ela, práticas como a automedicação podem provocar reações adversas, interações medicamentosas, toxicidade e até mesmo a morte.
Ações educativas e coleta de medicamentos
Durante o período, a Universidade Regional Integrada (URI) e a Prefeitura de Erechim promovem atividades em parceria, envolvendo escolas, unidades básicas de saúde e a própria universidade.
“Várias ações estão sendo realizadas e a gente acredita que é no simples que as coisas funcionam. Então, a gente tem um mês inteiro, na verdade, de uma ação para o descarte correto de medicamentos”, destaca Alexandra Nava Bresolin, professora do curso de Farmácia da URI e farmacêutica do município.
Entre as iniciativas, está a disponibilização de pontos de coleta para medicamentos vencidos ou em desuso, além de palestras, atividades educativas e orientações à comunidade.
Descarte correto ainda é desafio
Embora farmácias tenham obrigação de destinar corretamente seus próprios resíduos, a coleta de medicamentos da população ainda depende da adesão voluntária dos estabelecimentos. “Se em uma não tem ponto, dá para se dirigir a outro espaço”, orienta Juliana. Em Erechim, há pontos de coleta na farmácia da Unimed, na farmácia da URI e nas UBSs.
O descarte inadequado, no lixo comum ou na rede de esgoto, pode causar contaminação ambiental e riscos à saúde.
A acadêmica do terceiro semestre do curso de Farmácia da URI, Alexia Reiki destaca que “os medicamentos devem ser descartados com a embalagem que faz contato direto com ele. Por exemplo, comprimidos, eles devem ser descartados com as cartelinhas, não serem retirados cada um e botados na caixa. E também, se for líquido, é importante que seja no frasco para não ser derramado na caixa, como a caixa não é de um material feito para líquido, deve ser descartado com o frasco”. Já caixas e bulas podem ir para o lixo seco comum, pois não contêm resíduos químicos.
Medicamentos comuns também oferecem riscos
Mesmo remédios considerados simples podem causar danos quando usados de forma incorreta. Ela destaca que o uso excessivo de paracetamol pode causar danos hepáticos, enquanto anti-inflamatórios podem provocar problemas gástricos e elevar a pressão arterial, por isso “qualquer dúvida quanto a uma automedicação precisa ser tirada com o farmacêutico ou um profissional da saúde”, alerta Juliana.
Uso inadequado de antibióticos favorece resistência
A interrupção precoce do tratamento com antibióticos é um problema recorrente e contribui diretamente para a resistência bacteriana. Mesmo com a melhora dos sintomas, o uso deve seguir até o fim conforme prescrição médica. “A partir do momento que a gente parou de usar o antibiótico, eu costumo dizer que é como se essa bactéria tirasse uma foto daquele antibiótico então fica ali, gravado e em um outro momento, quando a gente necessita desse antibiótico, essas bactérias, elas já têm gravado. Então, a gente acaba tornando essas bactérias super resistentes”, explica Alexandra.
Além disso, o descarte correto do medicamento após o uso é essencial para evitar a automedicação e novos casos de resistência. No caso de antibióticos líquidos, o risco é ainda maior, já que o produto não mantém estabilidade por mais de 7 a 10 dias. “Se a pessoa aguardar aquilo ali e vai dar mais adiante, ele vai estar completamente degradado, ele não tem estabilidade e ainda vai potencializar um efeito tóxico na pessoa. Então, é bem importante que o antibiótico não seja reaproveitado”, frisa Juliana.
Doenças crônicas exigem uso contínuo
Pacientes com hipertensão e diabetes enfrentam dificuldades na adesão ao tratamento, o que pode trazer riscos graves. “É muito importante que a pessoa, mesmo estando bem com a pressão, ela siga com o tratamento contínuo para evitar um infarto ou AVC”, explica Júlia Kruszczynski, acadêmica do quinto semestre do curso de Farmácia da URI.
No caso do diabetes, Alexandra destaca o uso correto da insulina e a necessidade de combater preconceitos, pois segundo ela, ainda há resistência ao uso da insulina, muitas vezes vista de forma equivocada como “o fim da linha”, quando, na realidade, é essencial para a vida de quem convive com a condição.
Ela também alerta para o uso irregular da medicação, comum entre pacientes que só recorrem ao tratamento quando a glicemia está alta. Essa prática é ineficaz, pois o controle adequado só ocorre com o uso contínuo, seja por insulina ou medicamentos orais. Além disso, ela chama atenção para o descarte correto de materiais como agulhas, seringas e canetas, que devem ser armazenados em recipientes rígidos e levados a uma UBS, evitando riscos de contaminação.
Outro ponto importante é o armazenamento da insulina. “As pessoas costumam ficar preocupadas quando falta luz, pois a insulina precisa ficar na geladeira, mas a insulina em utilização se conserva por 30 dias em temperatura ambiente, então se faltar luz não precisa descartar. A gente pode seguir utilizando aquela insulina que já está aberta”, salienta Alexandra.
Já as insulinas fechadas devem ser mantidas sob refrigeração, entre 2 °C e 8 °C, longe do freezer. No transporte, recomenda-se o uso de caixa térmica. “É importante complementar também que ela não deve ser armazenada na porta da geladeira, porque a porta não mantém a temperatura de 2 a 8 graus. Então numa prateleira média da geladeira, que não fique com um potencial de congelamento e nem na porta”, explica Juliana.
Canetas emagrecedoras exigem cautela
O uso indiscriminado de medicamentos injetáveis para emagrecimento também preocupa. Para Juliana, “o uso está à frente das evidências” e ela ainda alerta para efeitos colaterais como náuseas, vômitos e até pancreatite, além dos riscos de produtos falsificados ou sem registro. “Tem que ficar de olho aberto, porque a gente não pode estar injetando no nosso corpo produtos que não tenha uma procedência”, enfatiza.
Armazenamento e organização também influenciam
A forma como os medicamentos são armazenados nas caixas organizadoras também impactam sua eficácia, “então é aconselhável que a pessoa recorte o blister em quadradinhos e guarde assim”, orienta Júlia, que também alerta para evitar locais úmidos, como banheiros. O ideal é guardar em armários e longe da luz.
Já sobre partir comprimidos, Alexia explica que nem todos podem ser fracionados. Alguns medicamentos tem um revestimento específico para ter uma absorção mais devagar ou até para não prejudicar o estômago e para ter certeza que o medicamento pode ser partido, ele geralmente vai ter um sulco no meio.
“Mas é recomendado que seja feito com o cortador específico de remédios e, também, caso tiver a possibilidade de comprar um remédio com a dose correta sem a necessidade de fracionar, é preferível”, conclui Alexia.
Informação é a principal aliada
Para os profissionais envolvidos, o acesso à informação é essencial para promover mudanças de comportamento. “De grãozinho em grãozinho, a gente vai conscientizando as pessoas”, conclui Juliana.
Alexandra entende que o diálogo entre pacientes e profissionais de saúde deve ser frequente e naturalizado para que o “uso dos medicamentos seja da melhor forma possível, com responsabilidade e com cuidado”, finaliza.