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Opinião

Poesia em Campo Aberto

Olhar (Parte 4) - A Mário Quintana, jardineiro da palavra

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Natan Fantin
Por Natan Fantin - Professor do Ensino Básico e Escritor; E-mail para contato: natanfantin@gmail.com
Foto Natan Fantin

Existe um desejo que não cabe nas casas onde aprendemos a morar.

Desejo de outros ares.
(Respire fundo, como quem desconfia do próprio fôlego.)

Não é fuga, embora pareça.
É antes uma lembrança do que ainda está por vir,
uma memória de advento que se insinua
nas frestas daquilo que chamamos cidade.

Porque também a cidade, esta aqui, Erechim ou qualquer outra,
guarda colinas invisíveis.
Não no relevo, mas no olhar.
E há olhares que, quando despertos, conspiram.
Conspiram contra o hábito, contra a pressa,
contra a cegueira confortável das paisagens conhecidas.

Ver, então, torna-se um exercício.
Quase uma disciplina.
(Como quem aprende, lentamente, a merecer o que vê.)

O olhar… esse gesto mínimo de interromper o fluxo,
não captura o mundo:
ela o devolve ao seu lugar.
Devolve à sua espessura esquecida,
à sua dignidade silenciosa,
ao seu excesso de sentido.

Porque há algo que insiste em aparecer.
Não como espetáculo, mas como algo que ainda não sei nomear.
Uma revelação discreta talvez,
que não grita, apenas espera.

E quase nunca esperamos.

Esperar é difícil.

Mas há um lugar onde essa espera se torna habitável:
um jardim.

Não um jardim edênico,
mas um espaço onde o tempo desacelera.

Ali, o trabalho não é ausência.
E o descanso não é fuga,
mas um ato de permanecer… essa arte esquecida.

Como se, naquele espaço sagrado,
a antiga vocação humana ainda respirasse:
cultivar e guardar.

Cultivar não apenas a terra,
mas o próprio olhar.
Guardar não apenas o espaço,
mas o sentido.

E então talvez compreendamos, tarde demais,
que o problema nunca foi a cidade,
mas o modo como a habitamos.

Porque uma cidade sem jardim
é apenas extensão do cansaço.
Mas uma cidade que aprende a florescer
torna-se mais do que cidade:
torna-se promessa de…

Talvez uma espécie de reconciliação entre começo e fim,
entre o primeiro jardim e aquilo que ainda esperamos.

E talvez seja isso que buscamos
quando queremos “outro ar”:
não outro lugar,
mas outro ritmo.

Um ritmo onde trabalhar não nos esgote,
e descansar não nos esvazie.
Onde o fazer e o ser deixem de se opor
e voltem a coincidir.

A fronteira da poesia, então, reaparece,
não no distante,
mas nesse equilíbrio raro.

Onde cada rima brota
como brota a grama entre pedras,
como brota sentido entre interrupções.

Ali, o chão não é suporte, é colo.
E o céu não é metáfora, é esfera.

E mesmo a cidade, quando verdadeiramente vista,
se torna campo aberto.

Esquecer as feridas não é apagá-las.
É plantá-las.
Regá-las com recomeços.

Porque há uma tristeza própria do nosso tempo:
não a dor,
mas a diáspora solitária.

E permanecer,
num banco de jardim,
num fim de tarde qualquer,
já é, silenciosamente, aprender a habitar.

Nem mil dicionários dariam conta.
Porque há experiências que excedem o adjetivo
como o real excede o conceito.

Fechar os olhos, nesse ponto

é abrir espaço para o invisível sustentar o visível.

(Feche os olhos, ao abri-los pode ser que seu olhar seja diferente.)

E então o que é sagrado aparece.
Não como geografia distante,
mas como intensidade de presença.

O aqui e agora.

Ali, rico e pobre sentam-se à mesma mesa.
Não por construção ideológica,
mas por verdade mais antiga que qualquer sistema.

E é curioso:
o lugar que buscamos como novo
talvez seja apenas este,
finalmente cultivado.

A cidade continua.
O jardim permanece.
O mundo respira.

O que muda, e muda tudo,
é o olhar.

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