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Opinião

Infância, linguagem e encantos

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Marcelo V Chinazzo
Por Marcelo V. Chinazzo – Pai do Miguel e do Gael, jornalista e escritor
Foto Marcelo V. Chinazzo

Ano passado escrevi sobre “a linguagem encantada da infância”, com várias palavras que a língua portuguesa julga incorretas e sendo bem sincero, não tenho a menor pretensão de corrigir. Um conjunto de termos que não existem nos dicionários, mas fazem todo sentido no mundo de quem os cria e, eu, como pai, apenas observo. Guardo nas melhores memórias e anoto em algum pedaço de papel, para o caso de, um dia, a minha memória me trair. Aliás, se eu puder dar um conselho aos pais seria esse, anotem tudo e montem um “dinossauro” com elas. Será uma linda lembrança para revisitar ao longo da vida. Não sei quando, mas sei que logo as palavras sairão todas certas e, aos poucos, a magia dessa linguagem encantada da infância vai se perder, restando apenas na memória saudosa de um pai.

É justamente nesse intervalo entre o “errado” fofinho e o “certo” inevitável que mora uma das fases mais bonitas da vida e, que os pais têm o privilégio de acompanhar. E, se me permitem, façam isso sem pressa ou intromissões. Algumas palavras da outra coluna (se não me engano, de novembro) já estão sendo ditas, para a minha tristeza e certa relutância, como manda o bom português. Não sei exatamente quando foi, apenas um dia percebi que já não eram mais ditas. Porém, ainda restam algumas e tem outras novas.

Tenho certeza de que vocês conhecem as lendas brasileiras, inclusive aquela cujo personagem é um menino pequeno, de cabelos vermelhos, dentes afiosos e pés virados para trás, o famoso Culuguinga. Mas vocês conhecem o corpisquinho, um mamífero roedor com espinhos afiosos pelo corpo? Dizem que não são venenosos, mas podem provocar pequenos fulaquinhos em seus predadores. Dizem também que se alimentam de frutos, será que comem aquelas frutinhas redondas e roxas, as muticabas? Ou será que preferem insetos, como as gugas que, antes de voar belas e coloridas por aí, rastejam pelo chão ou então as delicadas limélulas?

A propósito, às vezes nossos pequenos bilíngues nos surpreendem e vemos céus coloridos, tomados pelas mais diferentes boboleflys, rodeando as mais belas flores em meio a canteiros entre os palepitos que ainda existem em nossa cidade. Falando em mistura de línguas, outro dia eu precisava de algo para espalhar a maionese no pão, então, rapidamente, ele me pediu um sprededor de nése.

Nem sempre estamos bem, e há dias em que a febre chega, então, temos que pegar o tetomelu, colocar na testa e ver qual é a temperatura para buscar o melhor tratamento. Nesses momentos, os desenhos acabam sendo uma companhia e temos o Detetive Latadol, um labrador que resolve casos dificílimos, ou aqueles carros que viram robôs, os Tantósmes ou ainda o filme do Binócu, o nosso querido menino de madeira.

Como nem só de televisão se vive, desenhamos, montamos legos, brincamos de carrinhos e também de algumas brincadeiras tradicionais, conde-conde ou gata-serra, em que um venda os olhos e tenta encontrar e identificar os outros.

Tem dias que precisamos ir ao mercado, então pegamos o carro, o deixamos no cestamento e, por vezes, é preciso fazer algumas manobalas para estacionar e tudo tem que ser feito direitinho, senão a mamãe bravosa apita. Aliás, creio que essa definição deveria constar no dicionário oficial. É sensacional.

Nos últimos tempos, ele mesmo quer contar as histórias dos livros que “lê” e também esquitá algumas letras, formando suas palavras. Será que teremos, em breve, um livro de um pequeno escritor?

Como já disse, sei que tudo isso tem os dias contados, mas, por enquanto, cada palavrinha dessas é a forma única de como ele enxerga e compreende o mundo ao seu redor. E eu me sinto extremamente privilegiado por acompanhar tudo isso, sendo suporte, abrigo, colaborador e instrumento para lhe mostrar o mundo. Esse idioma infantil é único e passageiro e, justamente por isso, merece ser guardado com todo cuidado. Sinceramente, acho que é assim que a vida deveria ser dita, vista e vivida, pelos olhos e pela linguagem das crianças.

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