Podemos fazer diversas analogias a respeito da vida e, hoje, vou pensar nela como se fosse uma grande caminhada. A vida, tal qual uma caminhada, tem seus percalços, curvas, bifurcações, diversas trilhas, inúmeras belezas que, na pressa, não percebemos e a inconveniência de sair do roteiro justamente quando acreditamos estar com tudo sob controle. Às vezes, podemos até tropeçar, mas, em vez de desistir, precisamos parar, respirar e reunir forças para dar o próximo passo. Outro ponto em comum é que tanto a caminhada quanto a vida exigem paradas, algumas estratégicas, outras nem tanto. Às vezes, precisamos diminuir o ritmo, em outras, aumentá-lo, mas sem perder o movimento. Tudo isso faz parte. O grande problema é quando começamos a acreditar que uma parada significa o fim do caminho e deixamos de nos movimentar.
Vivemos tempos em que a pressa, os resultados e a capacidade de dar conta de tudo são supervalorizados. Precisamos estar em constante produção, conquistando algo, resolvendo pendências e, ainda assim, sorrindo para a foto, pois, sem um post, parece que nada disso faz sentido. Na ânsia de captar o melhor momento e o melhor ângulo, muitas vezes deixamos de apreciar as belezas do caminho, gravando-as apenas na nossa retina. Parece que viver não é o bastante e, então, assumimos a inútil responsabilidade de provar o tempo inteiro que estamos vivendo bem, mesmo isso não seja uma verdade absoluta. Mas a vida não funciona como uma postagem de rede social e, definitivamente, não está nem aí para o nosso planejamento.
O problema é que fomos ensinados a valorizar apenas o movimento que parece progresso, aquele que podemos ver ou tocar. Queremos resultados, conquistas, e respostas, mas nem sempre isso é possível, ao menos não da forma como imaginamos. Temos pressa para chegar — sabe-se lá Deus onde —, pouca paciência para esperar e uma enorme dificuldade de aceitar que, em determinados momentos, simplesmente caminhar já é uma conquista.
Quem enfrenta uma doença sabe que há dias em que levantar da cama é uma vitória, quem passa por um luto sabe que respirar fundo para suportar mais um dia exige uma força imensa, que ninguém é capaz de enxergar. Quem enfrenta uma crise, seja ela qual for, acaba descobrindo que algumas batalhas são perdidas e há histórias que não são bonitas, mas representam o que foi possível fazer e, está tudo bem. Nem todo movimento precisa ser grandioso, às vezes, um pequeno passo já é suficiente para aquele momento. Assim como em uma caminhada, na vida, é necessário parar para recuperar o fôlego e, em alguns momentos, aceitar ajuda, reconhecer os próprios limites e entender que descansar não significa desistir.
Aqui não quero romantizar sofrimentos, até porque não se trata de agradecer por uma tragédia, encontrar uma lição em cada dor ou transformar toda dificuldade em uma história de superação. Há coisas que simplesmente doem, são injustas, não deveriam acontecer e ponto final. Porém, precisamos ter em mente que existe uma grande diferença entre respeitar o nosso tempo e entregar os pontos, acreditando que não há mais nada a fazer. Afinal, mesmo as injustiças e as coisas que não deveriam acontecer, acontecem e fazem parte da realidade e exigem de nós resiliência para descobrir como seguir dentro das possibilidades que temos.
Assim como na caminhada, na vida, cada pessoa tem seu ritmo, sua história e seus limites, por tanto, não faz sentido comparar nosso caminho ao de qualquer outro caminhante. A vida não é uma competição para ver quem chega primeiro ou conquista mais coisas, embora muita gente pareça empenhada nisso, a ponto de esquecer o mais importante, que é caminhar, que é viver.
No fim, a roda precisa girar. Não necessariamente na velocidade que gostaríamos, nem na direção que planejamos, o importante é não perder o foco nem a disposição de seguir um passo de cada vez, aproveitando a vida ao máximo e buscando chegar ao final da caminhada com a certeza de que tudo valeu a pena. Que cada centímetro percorrido foi uma conquista, mesmo quando não houve medalhas afinal, somos resultado de um todo, e nenhuma etapa ou problema, isoladamente, define quem somos.
A vida tem seus percalços e algumas paradas são inevitáveis, mas não representam o fim. Jamais devemos esquecer que, enquanto houver um caminho possível, haverá movimento e, havendo movimento, haverá vida.