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Expressão Plural

O Gita e a ação política (I)

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Gerson Egas Severo
Por Gerson Severo
Foto Arquivo pessoal

Em razão de um grupo de estudos que mantenho na universidade (que tem, um pouco, o feitio de um clube de leitura), tenho andado às voltas com o clássico da Índia antiga “Baghavad Gita”, livro tradicionalmente atribuído a Vyasa e que é parte de uma obra maior, o “Mahabharata” – uma parte que ganhou vida própria. Trata-se de um texto relativamente bem conhecido no Brasil: foi até tema da canção “Gita”, de Raul Seixas e Paulo Coelho, estará lembrado o caro leitor/a? É aquela que diz “eu sou a luz das estrelas/ eu sou a cor do luar/ eu sou as coisas da vida/ eu sou o medo de amar”.

E relativamente bem conhecido no Ocidente como um todo, é claro: circula por esta banda do mundo desde o século XVIII, mas sobretudo desde o XIX: Humboldt e Schopenhauer foram seus leitores, e Emerson e Thoreau também. Oppenheimer, um dos principais artífices da bomba atômica, em citação melancólica e célebre (e em passagem histórica surpreendente), mencionou o Gita logo após o primeiro teste nuclear considerado bem sucedido: “Agora me tornei a Morte; o destruidor de mundos.” Um pouco mais tarde, o universo contracultural e hippie das décadas de 1960 e 1970 tomou-o como uma referência: se encontrássemos um mochileiro/a viajando pela América Latina, pela Route 66 ou pela França naqueles tempos, o Gita muito plausivelmente estaria em sua mochila, junto a um Herman Hesse, um Castañeda, um Dee Brown e um Eduardo Galeano.

“Bhagavad Gita” significa literalmente “Canção do Senhor”. De que trata o livro? A cena inicial é muito simples: Arjuna, guerreiro e príncipe, está prestes a entrar em uma batalha. Ao perceber que do outro lado estão parentes, mestres, amigos e pessoas que ama, ele entra em colapso moral. Larga o arco e diz, em essência: “Não quero vencer uma guerra que exige isso.” Seu interlocutor é Kṛishna, uma manifestação de Vishnu, que ocupa simultaneamente vários lugares: amigo, cocheiro, conselheiro. Assim, o Gita começa com... uma paralisia diante da ação. É isso. Um desânimo, uma vertigem, um assombro, um estupor. Um pedido de ajuda. Como em Hamlet. Krishna, então, suspende o tempo e como que “congela” o Campo de Batalha de Kurukshetra, onde dois imensos exércitos (kurus e pandavas) encontram-se frente a frente, e inicia um diálogo com Arjuna. Eis o Gita.

Uma boa chave para acompanhar a leitura é a pergunta: como agir quando nenhuma ação parece moralmente limpa? Não seria melhor recuarmos e declarar, com o Bartleby de Melville, que seria preferível “não fazê-lo”, não agir? Arjuna está diante de um dilema que qualquer um de nós pode reconhecer: agir pode produzir sofrimento; não agir também. E Kṛishna não responde simplesmente “lute”. O diálogo vai deslocando a questão e apresentando dobras da mesma: o que é agir? O que é não agir? Quem é aquele que age? O que significa cumprir o próprio dharma (em parte, aquilo que corresponderia a nossa posição e responsabilidade específicas)? O dharma é uma descoberta interior ou uma obrigação social? Podemos agir sem ficar presos ao resultado? O conhecimento transforma a ação? A devoção pode ser um caminho? O que permanece quando aquilo que chamamos de “eu” deixa de ser o centro e é dissolvido?

Quanta camadas, caro leitor/a. E quanta profundidade. A resposta do Gita é historicamente situada num mundo de varṇa (a categoria social-religiosa da Índia antiga que organiza a sociedade em quatro grandes categorias idealizadas), linhagem, guerra, parentesco e hierarquia. Quer dizer: não é uma leitura fácil – mas é uma leitura altamente recompensadora. É só que não convém esquecer esse contexto em nome de uma leitura “espiritualizante”, ou mística/mítica em uma direção new age contemporânea.

Bem: o que eu pensei foi desenvolver um texto que explorasse uma relação possível entre o Baghavad Gita e a ação política, desde uma outra pergunta: o que significa agir politicamente sem transformar a política em simples disputa pelo resultado? Parece relevante, não? Acontece, porém, que eu precisava desta introdução – e o espaço acabou. Na semana que vem, a continuação!

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