Ela está na bolsa, no carro ou na gaveta de casa. A aspirina é um dos medicamentos mais conhecidos do mundo, mas seus efeitos vão além do alívio da dor. Seu princípio ativo, o ácido acetilsalicílico (AAS), também interfere na ação das plaquetas e pode ser usado na prevenção cardiovascular em situações específicas.
Da casca do salgueiro ao comprimido
A história da aspirina começa com a salicina, substância presente na casca do salgueiro e usada medicinalmente desde a Antiguidade. A planta já era citada por Hipócrates há mais de 2 mil anos.
No fim do século 19, o químico alemão Felix Hoffmann, da Bayer, desenvolveu o ácido acetilsalicílico, uma versão mais estável e menos irritante ao estômago. Em 1899, o composto chegou ao mercado como aspirina e, no ano seguinte, passou a ser vendido em comprimidos. Mais de um século depois, o medicamento continua na Lista Modelo de Medicamentos Essenciais da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Como funciona
Em 1971, o farmacologista britânico John Vane demonstrou que a aspirina bloqueava a produção de prostaglandinas, moléculas envolvidas na dor e na febre. A descoberta contribuiu para o Nobel de Medicina de 1982.
O AAS inibe de forma irreversível a enzima ciclo-oxigenase, reduzindo substâncias relacionadas à dor e o tromboxano A2, envolvido na agregação das plaquetas. Por isso, seus principais efeitos são analgésico e antiagregante plaquetário.
Dengue exige atenção
A aspirina não é indicada para todas as situações. Em casos de suspeita de dengue, seu uso é contraindicado porque a doença pode reduzir as plaquetas e aumentar o risco de sangramento, efeito que pode ser agravado pelo AAS.
O Ministério da Saúde contraindica salicilatos, como o AAS, e anti-inflamatórios não esteroides no tratamento da dengue. Para dor e febre, paracetamol e dipirona estão entre as opções previstas.
Mesmo fora da dengue, doses analgésicas de AAS podem provocar irritação gastrointestinal, especialmente em pessoas com gastrite ou úlcera.
Quando pode proteger o coração
O efeito antiagregante explica o uso da aspirina na prevenção secundária de infarto e AVC, principalmente em pessoas que já tiveram um evento cardiovascular ou apresentam doença cardiovascular estabelecida.
Como as plaquetas não possuem núcleo, não conseguem produzir novas proteínas para substituir a enzima bloqueada pelo AAS. Por isso, seu efeito pode durar cerca de dez dias.
Na prevenção cardiovascular, as doses costumam ficar entre 75 e 100 miligramas por dia. Já na prevenção primária, para quem nunca teve um evento cardiovascular, a indicação é mais restrita e deve considerar individualmente o risco de benefício e de sangramento.
Gravidez e pesquisas sobre câncer
Em baixa dose, a aspirina pode ser prescrita a gestantes com alto risco de pré-eclâmpsia, sempre com acompanhamento médico.
Seu possível papel na prevenção do câncer colorretal também é estudado há décadas. Embora pesquisas anteriores tenham sugerido benefícios, evidências mais recentes não sustentam seu uso para a população geral. Estudos atuais investigam se o efeito pode ser relevante para grupos específicos, como pessoas com alterações no gene PIK3CA.
Uso exige orientação
Apesar de sua longa história, a aspirina não é isenta de riscos. O uso contínuo pode provocar lesões gastrointestinais e aumentar o risco de sangramento. Por isso, tomar AAS diariamente por conta própria não é recomendável.
Em casos de dor recorrente, o medicamento pode apenas aliviar o sintoma sem tratar sua causa. A escolha do analgésico deve levar em conta as características de cada paciente, especialmente em situações como dengue, gravidez, histórico de úlcera ou problemas cardiovasculares. Para uso prolongado, a orientação profissional é fundamental.