O transplante pediátrico é indicado quando uma doença compromete de forma grave o funcionamento de um órgão e os tratamentos disponíveis deixam de ser suficientes. Na infância, os procedimentos mais frequentes envolvem rim, fígado, coração e pulmão. As causas podem ser congênitas, hereditárias ou adquiridas e, em alguns casos, são identificadas ainda durante a gestação ou nos primeiros anos de vida.
O caminho até o transplante, porém, começa antes da cirurgia. A criança precisa passar por avaliação especializada para determinar a gravidade da doença, as condições clínicas e a necessidade de inclusão na lista de espera. O tratamento pode envolver medicamentos, cirurgias e, nos casos mais graves, equipamentos de suporte à vida enquanto não surge um órgão compatível.
Como funciona a espera por um órgão
A definição do receptor não ocorre simplesmente pela ordem de inscrição na lista. A seleção considera fatores como urgência médica, compatibilidade entre doador e receptor e, conforme o órgão, características como tamanho e peso. O objetivo é encontrar a combinação mais adequada entre o órgão disponível e o paciente que necessita do transplante.
Enquanto espera, a criança permanece em acompanhamento e tratamento para manter o quadro clínico o mais estável possível. Em situações de maior gravidade, podem ser necessários recursos de suporte temporário. No caso do coração, por exemplo, dispositivos de assistência circulatória podem manter o organismo funcionando enquanto o paciente aguarda um doador.
Há ainda situações em que o órgão pode ser doado por uma pessoa viva, principalmente nos transplantes de rim e fígado. Nesses casos, são exigidos critérios médicos específicos para preservar a segurança do doador e do receptor.
Diagnóstico e acesso ainda são desafios
Um dos obstáculos está antes mesmo da entrada na lista. Crianças podem chegar tardiamente aos centros transplantadores por dificuldades no diagnóstico, reconhecimento tardio da gravidade da doença ou demora no encaminhamento para serviços especializados. A distância também pesa: os centros transplantadores estão concentrados principalmente nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste.
Em 2025, o Brasil realizou 585 transplantes de órgãos sólidos em crianças e adolescentes, segundo o Registro Brasileiro de Transplantes. No mesmo ano, 91 pacientes pediátricos morreram enquanto aguardavam um órgão. Em dezembro, havia 1.033 crianças e adolescentes ativos na lista de espera.
A ampliação do acesso depende, portanto, não apenas da capacidade dos hospitais transplantadores, mas de uma rede que consiga identificar precocemente os casos, encaminhar os pacientes e oferecer condições para que as famílias permaneçam próximas dos serviços especializados durante o tratamento.
A doação é parte decisiva do processo
A disponibilidade de órgãos é outro fator determinante. A recusa familiar ocorre em cerca de 45% das entrevistas com familiares de potenciais doadores. Entre doadores de 0 a 17 anos, foram registrados 274 em 2023, 223 em 2024 e 211 em 2025.
Também existe o desafio de aproveitar adequadamente os órgãos disponíveis. Estimativas apontam que, se órgãos pediátricos fossem utilizados prioritariamente em crianças e adolescentes, conforme previsto na legislação, o número de transplantes poderia aumentar em até 30% ao ano.
A cirurgia não encerra o tratamento
O transplante representa uma mudança de etapa, não o fim da doença. Depois da cirurgia, o paciente precisa de acompanhamento médico contínuo, exames periódicos e medicamentos imunossupressores para reduzir o risco de rejeição. Infecções e outras complicações também exigem atenção, já que a imunossupressão reduz a capacidade de defesa do organismo.