Para objetivar o que é um “Patrimônio” utilizo-me de autores que pesquisei e indiquei em meu livro “Marcos do Colonizador: o Castelinho e a Casa”.
Para Orser Jr., o Patrimônio tanto pode ser um banco de madeira, um tapete, um guarda-chuva, uma chaleira de ferro. Todos são ricos de ideias e de sentimentos. As reflexões de parceria entre os homens e as coisas, compõem um dos mais interessantes fenômenos da Terra.
Em minhas pesquisas e buscas para alimentar o acervo do “Museu de História” da URI, pude compreender bem a frase de Orser Jr.
Quanto respeito eu sentia ao higienizar uma pedra lascada, uma ponta de flecha, um Yapepó, um cambuchi, um selim ajaezado de uma antiga sinhazinha; a obra de um tanoeiro; um ferro a brasa! Tudo obra de irmãos lá no passado que iriam embasar e desenhar objetos para o hoje. Patrimônio a ser compreendido. Sempre e sempre amei e admirei o Patrimônio, tanto material como imaterial. Lutei grandes batalhas por ele, obtendo raras vitórias.
Admirável igualmente é o Patrimônio que a mãe natureza presenteia ao homem, pedindo que haja consciência e o dever de preservá-lo.
Uma fantástica herança cultural nos foi legada. Basta abrirmos as portas do coração para senti-la. Aceito e parafraseio uma frase da amiga Maríndia Girardello, no livro “O fio da História” para quem a História não é só o que está escrito nos livros, ou só acontecimentos do passado. É, o produto das atividades do homem expresso, nas suas moradias, na enxada, nas cartas trocadas, nas fotografias, nos jornais mofando nos porões, nas histórias contadas pelos avós. O Patrimônio Histórico é bem isso: é o homem criando, construindo seu espaço de vida.
Sinto e observo o Patrimônio com os olhos da emoção e com o sentir que me desperta. Pode ser a caixa que guardei no “Museu de História” com o uniforme ensanguentado do soldado Tedesco, jovem de Erechim que, ao finda a Segunda Guerra Mundial, trouxe um pouco da terra de Monte Castelo, conquistado pelos pracinhas brasileiros.
O mesmo significado respeitoso possuiu o momento que vi uma planta de Acanto ao visitar a Ágora de Atenas. Fotografei as folhas nunca antes vistas por mim, pois elas enfeitaram os capitéis das colunas Corintias, as que mais amo e que estão em milhares de templos do povo helênico, que as observa quase sem senti-las, pois hoje a maioria são ruínas.
Existem Patrimônios suntuosos, fabulosos para deleite dos que sabem valorizá-los.
Outros espantosos em seus objetivos nem sempre ao alcance de todos. Em época distante cheguei com o Talgo na estação ferroviária de Santiago de Compostela. Chovia. Pela manhã, ainda chuvosa, andei solitária procurando o que viera buscar. Subitamente, vi-me diante da fantástica catedral. Comecei a tremer de incredulidade por estar ali. Entrei, bati a cabeça três vezes no Coque, assisti a missa do Peregrino, observando o balançar do fabuloso Botafumeiro, não tendo lenços suficientes para enxugar o pranto. Após abraçar São Tiago, comecei a pensar sobre as motivações que levaram os construtores a erguer semelhante obra em tempos sempre iletrados para a população mais humilde. Teria sido a fé ou o medo? Concluí que era por medo. Ao observar em tempo diferente, documentos sobre o tenebroso claustro da Igreja de Conques, da França, pensei a mesma coisa. Mesmo assim, um incrível Patrimônio humano.
Entretanto, centenas de majestosos Patrimônios religiosos, mosteiros, basílicas, catedrais, foram erguidas sem a tecnologia atual, exclusivamente pela fé.
Medo e fé ergueram pelo mundo Patrimônios que necessitam proteção, admiração e consciência do que representam.
Erechim, cidade amada, possuía um vistoso Patrimônio arquitetônico criado pelos destemidos colonizadores que nos ofertaram um ambiente diversificado e valorizado, inclusive por entidades internacionais como o ICOMOS.
Uma das unidades construídas de gigantesca marca histórica foi a “Casa Primeira Escola do Prof. Mantovani”. Reformada, escorada, cuidada por meu pai por muitos anos, ruiu solitária e sem carinho apagando uma marca primacial de nossa identidade. Minha esperança igualmente ruiu com ela. Fiquei com uma Fossa das Marianas na alma.
Dezenas de batalhas pelo Castelinho, foram perdidas. Patrimônio gravado a ferro e fogo no sentir dos colonos do século XX.
Quando surgiu o movimento por sua restauração meu coração começou a preencher-se de novas esperanças e gratidão pela equipe que o colocará novamente em cena na história de Erechim.