Essa é certamente uma das perguntas que mais afligem algumas famílias atualmente. É comum que uma solução para facilitar a rotina de crianças que já usam celulares e tablets para jogos digitais ou entretenimento seja presenteá-las com um dispositivo digital próprio.
De todo modo, a decisão de não permitir a posse de um celular próprio nem sempre é puramente individual e, em parte, costuma refletir o que as famílias dos amigos e pessoas próximas da criança e do adolescente fazem. Vale lembrar que a posse de um celular próprio, do tipo smartphone, dá acesso a todo o conteúdo da internet, independentemente de Classificação Indicativa; estimula o uso individual, seja na escola ou em casa; oferece acesso a redes sociais; e estimula a pressão para que os demais amigos também estejam nesse ambiente.
Por isso, especialmente depois da pandemia de Covid-19, marcada pelo uso intensivo de telas por crianças e adolescentes, surgiram, no Brasil e no mundo, movimentos de mães e pais buscando o adiamento desse momento até por volta do fim do Ensino Fundamental ou início do Ensino Médio, em uma espécie de decisão coletiva, pactuada no âmbito de uma turma escolar ou de amigos.
As evidências científicas disponíveis indicam que quanto mais tarde ocorrer a posse de aparelho celular próprio na infância, menores os riscos para a saúde física e mental, e para o desempenho escolar. A posse de celulares na adolescência é uma realidade e, se bem conduzida, pode fazer com que os benefícios superem eventuais riscos.
Por outro lado, vivemos em um mundo digital, e é esperado que em algum momento os benefícios e riscos desse mundo interpelem esses sujeitos em formação. Por exemplo, para muitas famílias, a possibilidade de ter contato com os filhos em contextos de violência urbana é considerada importante.
Por isso é fundamental, como destacamos neste Guia, que esse seja um processo dialogado, pactuado e feito com o acompanhamento dos adultos responsáveis. Trata-se de uma escolha que depende do contexto, da dinâmica de cada família e da maturidade de cada criança e adolescente em relação a regras de uso, segurança e privacidade.
Segundo o guia sobre usos de dispositivos digitais, publicado pelo governo federal, com base no que se sabe atualmente, recomenda-se que a posse de celular próprio do tipo smartphone não ocorra antes dos 12 anos de idade, sendo que, quanto mais tarde ocorrer, melhor.
Quanto às contas próprias em redes sociais, vale lembrar que os termos de uso da maioria das plataformas indicam sua utilização apenas a partir da adolescência, uma vez que essas redes não foram desenhadas para uso por crianças. A indicação é que, mesmo na adolescência o uso de redes sociais ocorra com mediação familiar. Além disso, há períodos sensíveis do desenvolvimento, especialmente na puberdade e no início da adolescência, em que os inúmeros riscos podem se mostrar maiores do que eventuais benefícios, a depender do contexto e da dinâmica familiar.
Do ponto de vista oftalmológico, ao qual me compete, o uso de telas tem efeitos na acomodação, superfície ocular e motilidade ocular, além de associação com miopia, acompanhados de sintomas extraoculares, como dores no ombro e no pescoço, cefaleia e dor nas costas.
Alguns sinais merecem atenção dos pais perante seus filhos:
Aproximar-se muito da televisão ou do celular;
Apertar os olhos para enxergar;
Queixas frequentes de dor de cabeça;
Queda no desempenho escolar;
Dificuldade para enxergar objetos distantes.
Nesses casos, uma avaliação oftalmológica pode identificar precocemente problemas visuais que muitas vezes passam despercebidos.
As telas fazem parte da vida moderna e dificilmente serão eliminadas da rotina das crianças. O segredo não está em proibi-las completamente, mas em utilizá-las com equilíbrio.
Estimular atividades ao ar livre, respeitar os períodos de descanso visual e realizar consultas oftalmológicas regulares são medidas fundamentais para proteger a saúde ocular dos pequenos.
Mais importante do que contar cada minuto de tela é garantir que a criança tenha uma rotina saudável, ativa e com tempo suficiente para explorar o mundo além das telas.
*Informações retiradas do documento: Crianças, Adolescentes e Telas Guia sobre Usos de Dispositivos Digitais. (https://www.gov.br/secom/pt-br/assuntos/uso-de-telas-por-criancas-e-adolescentes/guia/guia-de-telas-acessibilidade.txt/view?utm_source=chatgpt.com)