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Expressão Plural

Cada país tem os heróis que merece

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Carlos da Silveira
Por Carlos Silveira - Jornalista e Historiador
Foto Carlos Silveira

A Copa do Mundo terminou para muitas seleções antes da grande decisão. Como acontece a cada quatro anos, houve lágrimas, frustrações e o inevitável sentimento de que poderia ter sido diferente. Mas, curiosamente, o que chamou minha atenção não foi apenas o desempenho dentro de campo, e sim o que aconteceu depois do apito final.

Em diferentes partes do mundo, equipes eliminadas foram recebidas como verdadeiras representantes de seus povos. Em Cabo Verde, milhares de pessoas saíram às ruas para agradecer aos jogadores pela campanha histórica. Na Noruega, mesmo sem o tão sonhado título, a seleção foi recebida com festa, aplausos e reconhecimento. Não havia cobrança. Havia orgulho. E isso nos leva a uma reflexão. Talvez cada país tenha, de fato, os heróis que merece.

Durante décadas, o Brasil transformou sua Seleção em um patrimônio nacional. A camisa amarela era muito mais do que um uniforme. Era um símbolo capaz de unir um país continental, reunir famílias diante da televisão e fazer crianças sonharem em ser o próximo Pelé, Zico, Romário ou Ronaldo.

Perder fazia parte do futebol. Entre o tricampeonato de 1970 e a conquista de 1994 foram 24 anos sem levantar a taça. Nem por isso o carinho pela Seleção desapareceu. O brasileiro continuava acreditando, torcendo e reconhecendo seus jogadores como representantes legítimos de um sonho coletivo. Hoje, a realidade parece diferente.

A distância entre a Seleção Brasileira e seu torcedor nunca foi tão grande. Os atletas atuam quase toda a carreira no exterior, a identificação com os clubes supera, muitas vezes, o vínculo com a equipe nacional, e o futebol passou a disputar espaço com inúmeras outras formas de entretenimento e informação. Mais do que isso, o Brasil mudou.

Vivemos uma sociedade marcada pela velocidade, pelas redes sociais e pela polarização. Admiramos pouco e julgamos muito. O reconhecimento tornou-se efêmero. A derrota, por menor que seja, costuma apagar toda uma trajetória construída com esforço, disciplina e talento. Talvez não seja apenas a Seleção que tenha mudado. Talvez tenhamos mudado nós.

Enquanto alguns povos conseguem enxergar na camisa de sua seleção a representação da identidade nacional, nós passamos a medir nossos heróis apenas pelo resultado. Se vencem, são idolatrados. Se perdem, tornam-se alvos de críticas, ironias e, muitas vezes, de um silêncio quase constrangedor.

Mas será que o heroísmo nasce apenas da vitória? A história responde que não.

Os maiores heróis da humanidade nem sempre foram aqueles que venceram todas as batalhas. Foram aqueles que inspiraram pessoas, representaram valores e deixaram um legado que ultrapassou o tempo. No esporte deveria ser igual.

Uma seleção representa muito mais do que um placar. Representa uma bandeira, uma cultura, uma história e milhões de pessoas que, por alguns dias, compartilham o mesmo sonho.

Talvez seja por isso que imagens de aeroportos lotados, aplausos espontâneos e homenagens a equipes eliminadas despertem tanta admiração. Elas demonstram que o sentimento nacional pode ser maior do que o resultado esportivo. O futebol continua sendo um espelho das sociedades.

Quando um povo reconhece o esforço de seus atletas, mesmo na derrota, demonstra maturidade. Quando apenas a vitória é capaz de justificar o respeito, talvez seja hora de refletirmos sobre o que realmente valorizamos. No fim das contas, a Copa do Mundo não revela apenas quem joga melhor. Ela também revela quem somos.

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