O que define quanto tempo é pouco ou muito tempo? 60 anos, considerando-se a expectativa de vida humana, é tempo o suficiente para adquirir certa experiência. Mas, se tratando de conquistas, seis décadas de espera podem significar um atraso. Passados 60 anos, pela primeira vez na história, a Frinape, maior feira multissetorial da região, coroou uma rainha negra.
Neste ano, e abrindo espaço para que assim seja nos próximos também, Paloma Carvalho conquistou o título de Rainha da Frinape, enquanto Erechim e região conquistaram a chance de ampliar a visão e escrever um presente plural a fim de, no futuro, não repetir o passado.
Era uma vez...
Para muitos, essa história começa a ser contada a partir de agora, afinal, na prática, representatividade é construir um imaginário sobre o que se pode ser. “Eu sempre falo que não gostaria que isso fosse algo tão grande, porque já deveria ser normal ter uma rainha negra, e não ser a primeira. Mas para mim é uma honra imensa carregar esse legado, porque eu sei a importância que isso tem, principalmente na vida das crianças, porque eu já fui a criança que nunca viu uma rainha negra”, comenta Paloma Carvalho, a rainha da Frinape 2026.
Paloma conta que veio para Erechim aos 16 anos, em busca de melhor qualidade de vida. “Chegando aqui, eu fui acolhida por essa cidade, conheci muitas pessoas, tive muitas experiências e muitas oportunidades que fizeram com que eu me tornasse a mulher que eu sou hoje”, completa.
Com relação à coroa, Paloma diz que nunca sonhou em ser rainha. O motivo, segundo ela, era a distância entre a possibilidade e a realidade da criança que nunca se viu representada em tal figura. “Era algo que eu nem retratava na minha cabeça, que talvez nem seria possível”, relata.
O espelho
Hoje, Paloma Carvalho é uma representante pública das possibilidades. Conforme relataram Jessica Baggio Scartazzini e Antônio Augusto Iponema Costa, pais de Bella Scartazzini Iponema, a conquista de Paloma refletiu, também, na autoestima da filha.
“Ela traz uma representatividade enorme para a nossa casa. O meu marido é negro, a nossa filha é negra. Então, para mim, enquanto mulher branca, é muito importante que tenha um exemplo de mulher preta conquistando espaços, para que eu possa reforçar cada vez mais para a minha filha que isso é possível”, explica Jéssica.
Ao mencionar um caso recente sobre comentários a respeito do cabelo da filha, Jéssica acrescenta que “foi ainda mais importante pelo fato da Paloma ter o cabelo muito parecido com o da Bella, para eu mostrar que uma pessoa, uma mulher com um cabelo parecido com o dela, com um tom de pele parecido com o dela, hoje é rainha da nossa cidade. Então, essa representatividade, ela importa muito”.
O pai de Bella, Antônio Augusto Iponema Costa, também destaca o significado da vitória de Paloma. "Ela é uma pessoa que nos representa enquanto comunidade negra. Para a nossa filha, foi muito importante porque ela pôde, a partir de agora, sonhar em também ser uma princesa ou uma rainha, o que na minha época era muito difícil da gente pensar. Eu digo, inclusive, para os meus alunos que, como homem negro, eu sou uma exceção. Fui coordenador do curso de odontologia aqui da URI por duas gestões e eu sou uma exceção”.
Psicologia e representatividade
E isso tudo tem aval científico. A psicóloga e neuropsicopedagoga Monique Maína Milkiewicz Rosset explica que, do ponto de vista da Psicologia, a representatividade não é só uma questão simbólica, mas pode influenciar, ainda e principalmente na infância, a construção da identidade, a percepção do próprio valor, a compreensão do mundo e da sociedade.
“Ambientes com diversidade favorecem o desenvolvimento e aumentam o senso de possibilidade para as pessoas de grupos sub-representados. Desde muito cedo, as crianças vão percebendo as diferenças no mundo e fazendo associações, entendendo características e os papéis sociais. Sendo assim, quando uma criança negra vê uma rainha, uma princesa, um cientista, uma professora ou super-herói que se parece com ela, isso tem impacto na sua autoestima, amplia o seu pertencimento, aumenta a percepção de que é possível que ela ocupe posições de liderança, de beleza, de inteligência e respeito”, afirma.
Monique relata ainda a experiência que viveu em 2008, quando foi princesa étnica (na época Nativa) da Frinape. “Levando pela primeira vez a representatividade da população negra, com o conceito da cultura afro-brasileira e o turbante como marcador de identidade negra, pude sentir a responsabilidade que nos cabe ao ocupar esse lugar e o retorno das pessoas ao presenciarem algo diferente do que estavam habituadas, quando estamos em um lugar de representatividade, nós sabemos que não estamos sozinhos, carregamos toda a história de um povo e todos os nossos iguais conosco”, completa.
Ainda assim, a psicóloga e neuropsicopedagoga alerta que, mesmo fundamental, a representatividade sozinha não elimina os preconceitos, a desigualdade e o racismo. “A representatividade faz diferença quando vem acompanhada de convivência diversa e respeitosa, educação antirracista, oportunidades reais de participação e políticas capazes de reduzir as desigualdades”, conclui Monique.
Para os próximos capítulos da história, cabe compreender que há espaço de protagonismo para todos. “Então, sigam sempre o coração de vocês. É o nosso coração que nos leva a lugares diferentes, e sintam-se pertencentes desse lugar, porque ele também é seu”, aconselha a rainha Paloma.