Lá em casa, futebol sempre foi coisa séria. Cresci ouvindo minha vó Ângela contar a história sobre como o pai dela, vô Alcindo, faleceu. “Era inverno, dia 21 de junho, final da Copa de 70”, o Brasil venceu a Itália pelo placar de 4 a 1. Meu bisavô ficou tão emocionado com o tri que infartou.
Tal fatalidade nunca foi motivo para a família deixar de torcer e, inclusive, minha vó guarda, em meio ao acervo de objetos com grande valor emocional, um autógrafo de Pelé, também uma caixinha com a grama que arrancou do Maracanã anos atrás.
Ainda que a memória não alcance minha primeira Copa do Mundo, lá em 2002, o que posso dizer, modéstia parte, é que fui uma criança bem pé quente.
É claro que por ser da geração 2001, sempre tem alguém para lamentar por mim. “Sinto muito por você, que não presenciou Pelé, Jairzinho, Dunga, Cafu, Bebeto, Romário… aquilo sim era futebol”, dizem. Imagino que sim, e vejo que foi diferente.
Embora, como disse nosso segundo maior artilheiro da Seleção — o já aposentado Neymar Jr. — sinta “saudades do que a gente não viveu”, tenho tentado deixar de lado a racionalização tática e analisar por outro viés que, para mim, é o que melhor representa o futebol brasileiro: a perspectiva cultural.
Até porque reconhecer as falhas de marcação, a lateral escancaradamente aberta e os erros grotescos de uma suposta zaga, é fácil, qualquer um que repare com atenção consegue identificar; me parece até perda de tempo.
É que aqui, como bem lembrou o técnico paraguaio Gustavo Alfaro, não somente essa terra vermelha foi colonizada, mas também, e principalmente, o nosso pensamento. O esquecimento e a perda de subjetividade seguem, na minha visão, como fator determinante desses resultados.
Colonizaram, também, nosso futebol; arrancam "promessas" daqui cedo demais para moldar, adaptar e vender conforme o modelo europeu de qualidade. E lá se vai a identidade construída apesar das condições, o drible, a ofensividade. Assim, e consequentemente, se esvai a identificação com um futebol que, antes nosso, agora se aproxima cada vez mais da mediocridade.
Daí a importância de lembrar. Não a nível de comparação, afinal, já dizia Belchior, “o novo sempre vem”, e tem mais é que vir mesmo. Mas me refiro à capacidade de reconexão que a memória traz consigo. E, no nosso caso, está claro que beber da imposição ocidental tem nos deixado cada vez mais inconscientes e com sede de pertencimento.
Desde que me entendo por gente, nunca foi só futebol. E por sempre levar a sério é que convivo com um alerta recorrente do meu pai: “tem que saber perder”. Faz parte do jogo, isso eu sei. O que não admito é perder a capacidade de me emocionar, aquele ímpeto de abraçar a desconhecida ao meu lado na arquibancada ou no bar. Não quero perder a esperança antes mesmo do apito final, e muito menos deixar de acreditar no que é nosso.
Ainda bem que ano que vem tem Copa de novo e, até lá, dá tempo de secar as lágrimas, lamber as feridas e organizar a torcida. Dessa vez aqui, do Maracanã à pelada de Fundo de Quintal, e provavelmente como gostaria o vô Alcindo, “o show tem que continuar”.