A perda de alguém querido provoca mudanças profundas e exige um processo de adaptação que não segue um tempo definido. Cada pessoa enfrenta a ausência de uma forma diferente, seja por meio da família, da terapia, da espiritualidade ou de grupos de apoio, que oferecem um espaço para compartilhar experiências e encontrar acolhimento.
O sofrimento dos homens no luto
Entre as diferentes formas de vivenciar o luto, o sofrimento dos homens ainda costuma ser pouco percebido. Existe uma expectativa social de que eles demonstrem menos emoções, especialmente por meio do choro ou da fala sobre a dor. Para a psicóloga Maria Emília Bottini, essa interpretação pode esconder outras formas de manifestação do sofrimento.
“A gente acha que os homens não sofrem, que os homens não sentem. As mulheres dizem isso sobre as dores dos homens, pois muitas vezes não choram, porém demonstram de outras formas. O calar é sofrer. O guardar é sofrer”, afirma.
Segundo a psicóloga, o luto não deve ser avaliado apenas pela forma como a pessoa expressa seus sentimentos. Homens e mulheres podem reagir de maneiras diferentes diante da perda, e todas essas manifestações fazem parte do processo de reconstrução.
O isolamento e a busca por apoio
O isolamento, por exemplo, pode fazer parte dos primeiros momentos após a morte de alguém próximo. A pessoa pode precisar de um período para compreender a nova realidade antes de buscar ajuda ou retomar atividades da rotina. Com o tempo, porém, espaços de escuta podem auxiliar na reorganização da vida.
Os grupos de apoio surgem como uma alternativa para quem precisa compartilhar a experiência da perda. Nesses encontros, os participantes podem falar sobre suas histórias ou apenas ouvir outros relatos, percebendo que a dor não é vivida de maneira isolada.
Grupos de apoio
Na Fraternidade Espírita Francisco de Assis, as psicólogas Aline Mezalira e Juliane Torres coordenam um grupo voltado a pessoas em processo de luto. Os encontros são abertos à comunidade e trabalham a temática da morte e da continuidade da vida a partir da perspectiva espírita.
Aline explica que o grupo surgiu a partir da percepção de uma necessidade entre pessoas que procuravam a instituição após perder alguém próximo. “É um assunto que gera uma certa resistência. Por mais que as pessoas precisem falar sobre o luto, muitas querem deixar essa dor guardada, porque acreditam que falar vai doer”, relata.
Nos encontros, ninguém é obrigado a falar. A escuta também faz parte do processo, permitindo que cada participante encontre seu próprio ritmo para compartilhar sentimentos e experiências.
A Logoterapia e a busca por novos sentidos
Além dos grupos, outras formas de acompanhamento podem auxiliar no enfrentamento da perda. A Logoterapia, abordagem desenvolvida pelo psiquiatra Viktor Frankl, trabalha a busca por novos sentidos mesmo diante de situações de sofrimento, culpa e morte.
O psicólogo Paulo Kroeff explica que o objetivo não é eliminar a dor, mas ajudar a pessoa a perceber novas possibilidades de vida após a perda. “A vida sempre pode proporcionar possibilidades de sentido, mesmo quando a pessoa se defronta com elementos do que Frankl denomina a ‘Tríade Trágica’, o encontro com o sofrimento, a culpa e a morte”, afirma.
A reconstrução após o luto
A elaboração do luto não significa esquecer quem morreu, mas construir uma nova forma de conviver com a ausência. Para muitas pessoas, o apoio coletivo se torna um caminho importante para reconhecer a dor e encontrar formas de seguir.
No caso dos homens, ampliar os espaços de fala e acolhimento pode ser fundamental para que o sofrimento deixe de ser escondido.