Manhã de quarta-feira. Frio de doer na alma. Quero um café rápido. Os compromissos não me dão trégua. Entro no carro. Ao acionar a partida, o rádio desperta antes de mim. Primeiro, a vinheta da emissora. Depois, a voz do locutor.
Uma mulher foi morta. Não. Uma mulher foi esquartejada. Não. Uma idosa foi esquartejada pelo companheiro. Também um idoso. Onde? Aqui, no Rio Grande do Sul. Feminicídio de número 42.
Sigo dirigindo, mas já não estou no trânsito. Estou presa àquela notícia. Àquela mulher que, até poucas horas antes, respirava, sonhava, preparava seu café, aguardava uma visita, organizava a casa ou simplesmente observava a vida pela janela. Agora era uma manchete. E um número: quarenta e dois.
Os números têm uma crueldade silenciosa. Informam, mas também escondem. O número 42 não revela o timbre da voz daquela mulher, os sulcos de sua história, os medos que carregava nem os afetos que cultivou ao longo da vida. Não diz se gostava de flores, de chimarrão ou dos encontros dos grupos da terceira idade. Não conta das alegrias acumuladas ao longo dos anos nem dos sonhos que ainda resistiam ao tempo, especialmente quando foi rainha da terceira idade.
Escutamos... Lamentamos... Seguimos adiante. Então outro feminicídio acontece. Talvez por isso eu tenha sentido um aperto tão profundo. Porque, naquele instante, percebi que estamos nos acostumando ao inaceitável. O horror já não chega correndo; chega devagar, senta-se ao nosso lado. Aos poucos, transforma o extraordinário em banal e o absurdo em estatística.
Mas o feminicídio não começa com a morte. Começa muito antes. Os números contam mortes. As histórias contam vidas. Começa quando um homem acredita possuir o direito de controlar a vida de uma mulher. Quando o ciúme é romantizado. Quando a recusa feminina é interpretada como afronta. Quando a autonomia da mulher é vista como ameaça.
A morte é apenas o desfecho. O feminicídio é uma construção. E essa construção revela algo desconfortável sobre todos nós: como estamos educando — e amando — nossos meninos?
Durante gerações, ensinamos os meninos a vencer, mas não a perder; a competir, mas não a dialogar; a esconder lágrimas, mas não a compreender emoções; a demonstrar poder, mas não vulnerabilidade. Falamos pouco sobre respeito. Pouco sobre empatia. Pouco sobre o direito que o outro tem de partir.
Quiçá por isso algumas separações ainda terminem em perseguição. Alguns términos terminem em ameaças. Alguns "nãos" sejam recebidos como ofensa. O amor, quando adoece, transforma-se em posse. E a posse, quando se sente ameaçada, pode transformar-se em violência.
Como se isso não bastasse, surge uma palavra que parece impossível de existir, mas existe: vicaricídio. Até pouco tempo, o dicionário nem a registrava. Foi preciso inventar uma palavra para nomear a tragédia. Filhos mortos para ferir suas mães. Crianças transformadas em instrumentos de vingança. A simples existência dessa palavra deveria nos envergonhar como sociedade. Inaceitável precisar criar um termo para designar tamanha crueldade.
Não estamos diante de casos isolados. Estamos diante de um fracasso coletivo. Fracassamos quando ignoramos sinais de violência. Fracassamos quando naturalizamos comportamentos abusivos. Fracassamos quando a educação emocional ocupa os últimos lugares em nossas prioridades. Fracassamos quando, como educadores, ensinamos profissões, mas não ensinamos humanidade.
É claro que precisamos de leis, de proteção policial, de medidas protetivas eficientes e de punições rigorosas. Tudo isso é indispensável. Mas nenhuma política pública conseguirá, sozinha, resolver um problema que também nasce dentro das casas.
Precisamos dar afeto aos meninos com a mesma naturalidade com que o damos às meninas. Precisamos ensinar que ninguém pertence a ninguém. Precisamos ensinar nossas meninas que amor não combina com medo. Precisamos ensinar nossas crianças que respeito não é favor; é princípio. Precisamos construir uma cultura em que a dignidade humana seja maior do que qualquer desejo de poder.
Chego à Universidade. Desligo o carro. O rádio se cala. Mas a notícia permanece, porque o feminicídio número 42 não ficou no noticiário. Entrou no carro comigo. E, depois disso, tornou-se impossível chegar no trabalho fingindo que o problema pertence apenas aos outros.
Queria não ter escrito sobre isso hoje. Mas algumas dores não permitem silêncio.