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Opinião

Não cabe num contêiner

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Lucia Pagliosa
Por Elcemina Lúcia Balvedi Pagliosa – Professora da URI Erechim – Doutora em Linguística Aplicada - Membro da Academia Erechinense de Letras - AEL
Foto Elcemina Lúcia Balvedi Pagliosa

Dia desses, fui a uma dessas casas maravilhosas de móveis, artigos de decoração, tapeçarias, telas, cristais... Enfim, tudo aquilo capaz de transformar uma residência comum em algo digno, no mínimo, das páginas da Casa Vogue. Olhei deslumbrada para tudo o que observava e comentei com a vendedora:

— Dá vontade de encostar um contêiner na minha casa, despachar tudo o que existe nos cômodos onde moro há mais de cinquenta anos e começar do zero. Uma equipe de arquitetos faria os projetos, e eu apenas aprovaria.

Logo voltei à realidade. Aquilo seria possível apenas se eu tivesse sido uma das raras contempladas pela loteria esportiva naquele fim de semana. Mesmo assim, na minha cabeça passou um filme.

Como ficariam os novos ambientes da nossa casa? Talvez algumas paredes mudassem de lugar ou simplesmente desaparecessem. O pátio também passaria por transformações. Os banheiros ganhariam boxes maiores e algumas invenções geniais que só os arquitetos parecem conhecer. Os aposentos da Olga ficariam mais próximos dos nossos — afinal, nós três, com idades tão semelhantes, precisaríamos cada vez mais uns dos outros daqui para a frente.

E a grande varanda voltada para o pátio? Ficaria linda toda envidraçada. Mesmo nos dias de geada, poderíamos estar ali sentados em confortáveis poltronas, cercados de livros, jornais, chimarrão, revistas de palavras cruzadas e sudoku, como fazemos desde sempre.

Viajei. Talvez como só tenha viajado na adolescência, quando nem das asas de um avião precisei para alcançar outros mundos.

Depois de tanta ebulição cerebral e de tantas visões fantasiosas, voltei para casa. Olhei para os lugares de sempre e, teimosamente, comecei a imaginar o que sairia dali — ou o que permaneceria — e como ficariam os novos espaços.

Comecei pela biblioteca, lugar que abriga muitos dos meus dias. Há pouco tempo enviei ao sebo cerca de cinquenta romances que provavelmente já não terei oportunidade de reler. Precisava abrir espaço para outros. Móveis novos ali? Não. Talvez apenas uma iluminação melhor para as noites de leitura.

Observei as caixas feitas sob medida para guardar fitas e cartões, papéis de presente, documentos nossos e das filhas, cartas e bilhetes recebidos do namorado durante os seis anos que antecederam o casamento. E nada disso iria embora. Talvez alguns livros técnicos, que sustentaram minha atividade profissional por décadas, pudessem partir um dia. Mas ainda não.

Nas salas, os adornos falavam de viagens e de momentos especiais: quadros, taças, réplicas de peças de museu, honrarias recebidas da Feira do Livro e da FRINAPE, eventos dos quais fui patrona. Havia também as telas que guardam lembranças queridas: as releituras de Renoir e Rembrandt feitas por Lauro Schuck; os azuis da Miriam Christmann; o São Francisco de Ivone Demoliner; os campos de Tere Zanin; as flores de Lu Cantele; a escultura, mais uma vez de São Francisco, do grande mestre Santos; as cerâmicas da Gabi Girardelo.

Como substituir tudo isso?

Ao seguir para a parte íntima da casa, no primeiro patamar da escada, meus olhos encontraram um antigo bidê que integrou o quarto de casamento de meus pais durante décadas. Ao lado dele, uma cadeira da mesa de refeições que, juntamente com outras doze, acolheu os onze filhos em incontáveis almoços e jantares.

No nosso quarto, móveis quase centenários herdados dos meus sogros falam de um tempo em que a madeira era abundante na região e o trabalho moldava a vida das pessoas.

Uma parede inteira exibe rótulos que documentam a trajetória de uma empresa que atuou por quase cem anos. Uma história de agruras e glórias, iniciada antes mesmo da emancipação de Erechim, primeira inscrita na ACCIE e cuja Laranjinha Balvedi continua presente, até hoje, nos melhores momentos de muitas pessoas — especialmente das crianças.

Saí para o pátio.  Ali senti, mais uma vez, o aconchego de perceber a brisa, a chuva, o calor e o frio sem que mantas de vidro me separassem deles. Dali vislumbro o horizonte, por vezes colorido de forma exuberante, por vezes escondido pela cerração ou anunciando a chegada da chuva.

Retornei no tempo. Vi-me criança na festa de casamento do meu irmão Orestes, realizada no clube que ocupava o terreno onde hoje está minha casa. E logo adiante, quase ao alcance dos olhos, o lugar onde nasci.

Também me pareceu ver nossas filhas transformando cada cômodo em extensão dos seus mundos de fantasia. E percebi que muitas dessas presenças continuam ali: a cadeira de balanço, as bonecas, os jogos, as pequenas lembranças guardadas com carinho.

Quase em lágrimas, decidi: tudo fica.

Nem mesmo um contêiner seria capaz de levar embora aquilo que realmente importa. Eu precisaria de outra casa para guardar minha vida, minha história, meus cinquenta anos de casamento, meus amores e todos os meus sonhos.

Cada passo dentro desta casa — do tapete onde piso ao assoalho de madeira lustrosa; do canto da mesa que tantas vezes me atropelou ao sofá onde me sento há anos — fala de mim, da família, dos amigos, dos choros e dos risos. Fala até dos animais que passaram por nossas vidas e já se foram.

Desfazer-me-ei apenas daquilo sobre o que não consigo contar uma história. Os pedaços da vida costurados pela emoção, tudo aquilo que guarda lembranças capazes de aquecer os dias frios e silenciosos, permanecerá onde está. Não desperdiçarei nada do seu aconchego, ainda que alguém diga que as peças desta casa não conversem entre si. Foi assim que as teci na memória: não para mostrá-las, mas para vivê-las. Porque, no fim das contas, uma casa vale menos pelo que contém e mais pelas histórias que é capaz de guardar.

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