21°C
Erechim,RS
Previsão completa
0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Opinião

O triângulo amoroso da leitura: um compromisso de afeto e verdade

Entre o papel e o pixel, formar leitores é um pacto de afeto, exemplo e persistência.

teste
Elcemina Lúcia Balvedi Pagliosa
Por Elcemina Lúcia Balvedi Pagliosa - Professora da URI Erechim – Doutora em Linguística Aplicada - Membro da Academia Erechinense de Letras – AEL
Foto Elcemina Lúcia Balvedi Pagliosa

Leitura é tema que nunca repousa. Ecoa nos corredores das escolas e nas mesas de jantar: “Os alunos não leem”, “Leem, mas não compreendem”, “Não leem, por isso escrevem mal”. E é tentador culpar a era digital. Mas, antes de apontar o dedo, convém olhar o retrovisor.

A leitura sempre foi território de poucos. Já esteve nas mãos dos escribas, sob a vigilância do clero, distante das mulheres, negada aos escravizados. Ler foi, por séculos, cetro e privilégio. Hoje, as portas das escolas estão abertas, mas o gesto íntimo de abrir um livro — e permanecer nele — ainda é conquista em construção.

O acesso cresceu, é verdade. O livro digital democratizou páginas, ampliou vozes, levou bibliotecas a salas de espera e a sessões de hemodiálise. Cabe no bolso, ilumina a tela, ajusta o tamanho das letras para olhos cansados. Mas o mesmo mundo que amplia também dispersa. As redes oferecem recompensas rápidas, fragmentos velozes, manchetes que nos dão a ilusão de leitura. Entre o algoritmo e a reflexão, trava-se uma disputa silenciosa pelo nosso tempo interior.

Culpar a tecnologia é fácil. Difícil é reconhecer a própria inércia. Regulamentam-se celulares; esquecem-se exemplos. Nenhum decreto substitui o pacto ético entre pais e professores. Autoridade não se impõe por portaria: constrói-se na coerência.

Aprender, lembrava Bruno Bettelheim, é ato de vontade. E vontade nasce do afeto. Ninguém se torna leitor apenas por obrigação — torna-se por encantamento. O estudante precisa sentir-se visto, acolhido, desejado em sua aprendizagem. A leitura é contágio amoroso — como diz Marina Colasanti. Professor que não lê não forma leitores. Família que não lê dificilmente cultiva esse hábito. Livros precisam habitar as casas, misturar-se aos brinquedos, ocupar as conversas.

Não importa o suporte: papel ou tela. O que importa é a presença. A formação de um leitor exige tempo, paciência e insistência — como quem rega uma planta que ainda não floresceu.

 O “triângulo amoroso”, não o de Machado, mas entre família, escola e sociedade sustenta-se no compromisso compartilhado. Se cada vértice faltar, a figura se rompe. Que neste ano troquemos a queixa pela ação, a passividade pela presença, porque ler — no papel ou no pixel — continua sendo o caminho mais íntimo e mais seguro para a liberdade. Mas é preciso querer caminhar.

Leia também

Publicidade

Blog dos Colunistas

;