21°C
Erechim,RS
Previsão completa
0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Rural

De olho no herbicida 2,4 D

Uso deste defensivo agrícola havia sido proibido, em 2008, no Brasil, mas foi liberado, em 2018. Subcomissão no RS formada por entidades produtivas e universidades vai discutir suspensão e proibição

teste
Defensivo requer aplicação correta
Deriva na cultura de erva-mate
Por Redação
Foto Leandro Galon e Valdir Pedro Zonin

A Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul realizou audiência pública da Comissão de Agricultura, Pecuária, Pesca e Cooperativismo, na quinta-feira (3), em Porto Alegre, para discutir sobre uso do herbicida 2,4-D que tem prejudicado outras culturas, no Estado. Na ocasião, ficou definida a criação de uma Subcomissão, que vai tratar sobre a suspensão e proibição da aplicação de herbicidas hormonais nas lavouras gaúchas, especialmente, na soja. Para entender mais sobre este assunto, a redação do Jornal Bom Dia foi buscar mais informações, com profissionais e pesquisadores desta área.

Audiência Pública

O professor de Agronomia na Universidade Federal da Fronteira Sul – Campus Erechim, Valdecir José Zonin, estava presente na audiência pública e representou a instituição, que se posicionou pela proibição temporária do uso do 2,4 D. “A subcomissão será formada por representantes das entidades produtivas e das universidades Unipampa, UFRGS e UFFS. O uso do 2,4 D foi proibido em 2008 no Brasil, mas voltou a ser liberado em 2018 por descontrole de plantas daninhas, que se tornaram mais resistentes”. 

Ele explica que o Estado do RS não tem condições de fiscalizar a aplicação deste produto e, por isso, é necessário suspender o seu uso e aplicação para construção de uma legislação regulatória. “No Alto Uruguai, as araucárias, que são plantas sensíveis, há 7 anos não têm produzido pinhão e isto está relacionado ao uso do 2,4 D”, ressalta Valdecir.   

O professor é representante do Observatório da Soja no Conesul e afirma que a maioria dos produtores de soja no Rio Grande do Sul não usam mais o 2,4 D, porque fazem o manejo correto das lavouras, como cobertura do solo, entre outras práticas necessárias, que diminuem a proliferação de ervas daninhas.

O professor Valdecir explica que o herbicida 2,4 D, com a formulação éster, é o mais prejudicial e que já existem moléculas menos prejudiciais, como o formulado com amina, que tem menor deriva. “A Subcomissão vai discutir a suspensão e proibição da aplicação de herbicidas como o 2,4 D nas lavouras gaúchas, especialmente, na soja”, afirma.

Melhorar as tecnologias

Conforme o professor da Universidade Federal da Fronteira Sul, Leandro Galon, há 13 anos trabalhando no Campus Erechim, com manejo de plantas daninhas, em culturas de inverno, verão, e, desde 2000, com herbicidas.

“Já faz algum tempo que se discute a proibição ou não do uso do 2,4 D, que pertence a um grupo de herbicidas, que tem particularidades, que é precisar de tecnologia de aplicação adequada, porque são muito voláteis, quando tem a temperatura do ar elevada, ou baixa umidade do ar, ele tem facilidade muito grande de volatilizar, dispersar, para locais distantes de onde ele foi aplicado. E, assim, atingirem culturas sensíveis como videiras, frutíferas, hortaliças (tomate, alface), oliveiras, tem um rol de espécies que são muito sensíveis a este produto”, explica Galon.

Ele comenta que o rótulo destes herbicidas hormonais alerta para que o produto seja aplicado, no mínimo, a 800 metros de distância das culturas sensíveis. “O próprio fabricante já alerta sobre a aplicação, que seja feita com alta vazão, gotas grossas, sem pressão alta no pulverizador, não aplicar com vento e não se recomenda aplicar menos de 150 litros de vazão por hectare. Então, a questão não é proibir, porque tem o dicamba, que também ocasiona problemas similares, a solução é melhorar a tecnologia de aplicação e que o produtor observe, no momento das aplicações, as condições climáticas, temperatura, umidade e vento, principalmente”, observa o professor.

Extensão rural

Ele ressalta que para que o produtor saiba disso tudo é preciso de ações de extensão rural de qualidade e pública, que faça um acompanhamento efetivo ao produtor rural, priorizando todos os cuidados necessários para aplicação dos defensivos agrícolas. “De posse de assistência técnica de qualidade, estes produtos como o 2,4 D, irão ter uma aplicação bem melhor do que está sendo feito hoje. Todos os agrotóxicos quem faz a assistência técnica é a iniciativa privada. Os desafios, não somente são em relação ao 2,4 D, mas em todos os agrotóxicos, é qualificar o produtor rural, levar mais informações, porque dá pra reduzir a dose, evitar o impacto ambiental, a poluição do ambiente e do solo, e de atingir as lavouras sensíveis. Os inseticidas e fungicidas também são problemas, porque se não seguir as recomendações técnicas eles também vão parar em outras lavouras ao lado. A diferença é que o inseticida e fungicida não irão matar os tomates do vizinho. Então, tudo isso é um desafio muito grande no Brasil”, ressalta.

“Não é culpa do agrotóxico, do 2,4 D, se for usado corretamente, ele é uma ferramenta necessária para agricultura, tem situações que só tem ele para controlar algumas espécies de plantas daninhas, como a buva, leiteiro, caruru, e se não usar o 2,4 D, no milho ou na soja (resistente ao 2,4-D), não tem como controlar, porque outros não controlam mais, a planta cria resistência. Eu defendo a ideia de que temos que saber trabalhar com estes produtos, seguindo o que a cartilha manda”, enfatiza Galon.

Volátil

O engenheiro agrônomo, mestre, Valdir Pedro Zonin, supervisor regional da Emater/RS Erechim, e presidente da ASPEMATE, afirma que o 2,4 – D é volátil e o seu uso precisa ser proibido. “Ele já é proibido nos EUA e Europa, conforme a região, há 10, 20 anos. Este herbicida gera inúmeros prejuízos às outras culturas no Rio Grande do Sul e no país inteiro. Eu me refiro ao 2,4 – D volátil e há muitos herbicidas à base deste produto. Sendo volátil tendo vento ou não ele se desloca vários quilômetros depois de aplicado. Temos casos em que já foi achado a presença de 2,4 – D volátil em 15 quilômetros do local da aplicação, ele realmente se movimenta para a vizinhança, independente de vento, deriva ou não deriva”, ressalta Zonin.

Produto não volátil

Conforme o agrônomo, já existe no mercado o 2,4 – D não volátil parecido com o glifosato e outros secantes, que depois de aplicados não se movimentam no ambiente. O herbicida não volátil fica na propriedade em que foi aplicado, não se desloca, não tem deriva, vai ficar concentrado na área aplicada, a não ser que tenha vento e outros mecanismos que levem este material”, comenta.

“A recomendação é que se faça a proibição no Estado do uso dos produtos voláteis e que sejam permitidos os não voláteis e, ainda, com recomendações, receituário agronômico e técnicas de uso, porque não pode ser aplicado com vento, nas horas mais quentes do dia, tem que ter muito cuidado”, afirma.

Zonin enfatiza que o 2,4 – D, o produto volátil, precisa ser proibido, porque é muito destrutivo e traz muitos prejuízos às outras culturas. “Ele tem efeitos na biodiversidade, além das plantas, o herbicida atinge a saúde humana e animal. Por exemplo, o 2,4 – D não mata as abelhas, porque é um herbicida, mas atua no organismo delas, não se tem certeza absoluta qual é o princípio, mas se sabe que ele desorganiza as abelhas a ponto delas não encontrarem mais a colmeia e acabarem morrendo, por este segundo motivo. E 60% das culturas dependem da polinização da abelha”, explica Zonin.

Ele ressalta que a viticultura é uma das culturas que mais sente os efeitos do 2,4 – D, prejudicando toda a cadeia do vinho, produção de erva-mate, maçã, que também sofrem muitos danos, e a olivicultura, o cultivo das oliveiras, produção mais recente no RS, mas muito prejudicada.

Leia também

Publicidade

Blog dos Colunistas

;