Nas disciplinas de Direitos e Cidadania que leciono na UFFS (Universidade Federal da Fronteira Sul), busco iniciar um diálogo com os estudantes questionando-os sobre o que significa cidadania. Sem exceção, as respostas convergem rapidamente para o exercício do voto. Essa associação não ocorre por acaso; as propagandas eleitorais que acometem nosso cotidiano a cada dois anos, por semanas, alimentam a ideia de que participar das eleições é a principal — com sensação de única — maneira de exercer a cidadania. De certa forma, as campanhas eleitorais se tornaram os maiores cabos eleitorais da cidadania no Brasil, mobilizando seu exercício e até sua lembrança.
É comum que, após familiares e amigos votarem, escutemos ou encontremos nas redes sociais expressões como: “Exerci minha cidadania”, como se, após esse ato, não houvesse mais nada a ser feito, como se votar fosse uma prática isolada e um verbo intransitivo. É interessante refletir sobre como não devemos limitar nossos direitos e deveres de maneira tão improrrogável, como se nosso status e incumbência de cidadãos se iniciassem às 8h e terminassem às 17h de uma data marcada pelo TSE em um calendário eleitoral.
É socialmente saudável ampliarmos nossos dias de cidadania, tendo como referência o calendário gregoriano de 365/366 dias. Isso porque ser cidadão está intimamente ligado ao bem-estar coletivo, ou seja, à promoção da justiça social e à inclusão.
Para além do voto, o exercício da cidadania pode se dar em ações como o voluntariado, a defesa dos direitos humanos e o engajamento em discussões públicas — participação em audiências públicas e apoio a iniciativas que visam a melhoria da qualidade de vida da população. Além disso, a cidadania também se manifesta por meio da promoção de campanhas de conscientização sobre questões sociais, ambientais e políticas, bem como pelo incentivo ao diálogo entre diferentes grupos da sociedade.
Se tais opções parecem excessivamente formalizadas, é possível exercitar a cidadania por meio de pequenas ações cotidianas, como consumir produtos locais e sustentáveis, compartilhar informações socialmente relevantes — como direitos, deveres e serviços —, participar de voluntariado, apoiar causas sociais e, até mesmo, o famoso, mas não menos importante, ato de reciclar. Ou seja, é possível exercer a cidadania diariamente, em uma frequência bem mais assídua do que as evocadas pelo período eleitoral.
É fundamental que compreendamos que o exercício da cidadania se estende muito além do dia das eleições; ele é um compromisso contínuo, que se manifesta em cada ação que visa melhorar nossa comunidade e a vida coletiva. Cada pequeno gesto, cada voz levantada em prol de um ideal coletivo, fortalece o tecido social e contribui para um futuro menos indesejável.