Existe um livro chamado “Caminha que a vida te encontra”, da famosa escritora Ana Tereza Camasmie, mas para além do título, é a essência para pais que perderam seus filhos. Caminha, pois dessa forma a vida te encontra. Movimente-se, não deixe a dor te consumir.
Ouvi, certa vez, passadas poucas horas da perda de um dos meus filhos e sem saber como colocar aquele sentimento que eu não podia explicar e não queria sentir para fora, que aquela dor ali não tinha nome. Que um filho ao perder um pai fica órfão, que uma esposa ao perder o marido fica viúva, que tudo o que acaba, denomina-se “ex”, mas quem perde um filho não tem nome. Ali eu entendi que o sem nome me acompanharia para o resto da vida. Ainda assim, levei um tempo para compreender que eu precisava caminhar para que a vida pudesse me reencontrar e eu a ela.
Ao me tornar pai, meu mundo ganhou novas cores, tons, amores e sentimentos. Porém, no auge da minha felicidade, fui jogado em queda livre em um novo mundo, onde tudo era dor, escuridão, tristeza e conheci novos tons de preto, de cinza e experimentei sentimentos tão ruins e controversos e senti uma dor tão grande que me consumia, como se me destruísse de dentro para fora.
Foi olhando fundo nos únicos olhos que estavam no mesmo lugar que eu, que senti o impulso de vida mais forte até então. Mesmo pequeno e com pouco espaço, foi um chute, dentro daquele mesmo ventre, que me movimentou fazendo com que um ar novo tomasse os meus pulmões. Não posso dizer que me enchi de vida e nem de esperança, talvez apenas uma coragem mascarada de necessidade. A necessidade de ajudar meu filho a partir livre, cheio de luz e de amor, o tanto quanto ele nos trouxe, mesmo que ele precisasse permanecer mais um tempo ali dentro sentindo o calor de mãe, mesmo sem sentir. E a necessidade de salvar o meu filho, que recebeu a bênção de continuar vivo e conhecer todas as nuances desse mundo.
Viver após a perda de um filho é um caminho árduo e doloroso, mas não é pecado. A vida é uma dádiva, sempre. Precisamos apenas aprender a viver sem um pedaço do nosso coração, sem uma parte do nosso pulmão e, assim, pela metade, administrar as lembranças e a dor que ficam por inteiras. É difícil, mas é parte. Parte da nossa história e da deles.
Ainda tenho muito a aprender e a caminhar. Sei que a dor vai me acompanhar por onde eu for e o quanto eu for, mas também, e mais ainda a alegria. A alegria de ter sido escolhido por ele e a alegria, a energia, a esperança e o amor que meu outro filho me traz a cada segundo. Agradeço também ao grupo de pais Vida Urgente que me ajuda todos os dias ir ao encontro da vida e, ao dormir, colocar um ponto e, ao acordar, uma nova linha no meu livro da vida. Sempre caminhando, pois sim, a Vida é Urgente!