Viagem realizada por um grupo de jovens de Erechim e região para conhecer a cena musical da América Latina deverá ser transformada em documentário
Do espírito aventureiro e da vontade de conhecer a cena musical da América Latina, um grupo de jovens de Erechim e região tornou concreta uma experiência memorável: a expedição Almas Brasucas, realizada em janeiro deste ano. No roteiro estavam províncias argentinas e chilenas que permitiram além de boas experiências musicais e pessoais, paisagens fascinantes e boas histórias para contar.
O músico e educador Joel Caminho, morador de Ponte Preta, explica que a ideia surgiu a partir de uma viagem realizada na virada de 2013 para 2014 da qual ele e seu parceiro de banda, Keio Flach, de Erechim, participaram. “Já que somos músicos, pensamos em fazer isto enquanto banda para conhecer melhor a cena musical fora do país. Um outro grupo de amigos músicos também gostou da ideia e então abraçamos a causa. Além da gente, o empresário Jean Spazin, de Barão de Cotegipe, quis acompanhar a expedição para ajudar caso houvesse algum problema. Junto conosco foi ainda o fotógrafo Alex Fabiano”, explica.
Nos três meses anteriores à expedição, os músicos conseguiram fazer shows por cidades da região a fim de juntar dinheiro para viabilizar a viagem. O restante do valor foi viabilizado durante a expedição com apresentações realizadas nos locais onde ficaram. “Além disso economizamos muito porque acampávamos, o que evitava que gastássemos com hotéis”, relata Joel.
Roteiro e apresentações
A bordo de uma van e de uma motocicleta, a saída de Erechim foi no dia 9 de janeiro. O primeiro destino foi a província de Santo Tomé, em Corrientes, na Argentina. No veículo viajaram, além de Joel e Kéio, os músicos Maikon Varela, Michael Pedrotti, Matheus Moresco e Yuri de Paula e, também, o fotógrafo Alex Fabiano. Jean seguiu acompanhando de motocicleta. Em solo argentino, o grupo percorreu ainda as províncias de Paraná, em Entre Rios; Santa Fé; Jesús Maria em Córdoba; San Luis e La Paz, em Mendoza.
“Tínhamos shows agenciados por um amigo nosso em Santa Fé apenas, nos demais locais conseguimos nos apresentar fazendo contatos em nossa chegada e em todos os pontos tivemos boa aceitação. Inicialmente pensávamos em nos apresentar nas ruas, mas acabamos conseguindo de maneira fácil negociar apresentações em bares”, recorda Joel.
Após a passagem pela Argentina, eles seguiram para San Felipe, em Val Paraíso, já em território chileno. Ao passar pela aduana, um pedido inusitado: “Pediram que nós tocássemos e foi o que fizemos”, recorda. No Chile, ele salienta ainda que tiveram mais resistência ao tentar negociar suas apresentações, bem como para acampar. “Chegamos a acampar em lugar improvisado pois os chilenos são mais ‘linha dura’ com os estrangeiros”, diz. Ainda assim, o país permitiu paisagens que Joel afirma serem memoráveis. “Depois de ficarmos em Loncura, seguimos para Coquimbo para então pegarmos a Costa Litoral onde encontramos praias exuberantes e paisagens lindas”, destaca. Já na província do Atacama, os músicos destacam as dificuldades como a alta pressão atmosférica, a altitude e o ar seco.

Chegando em São Pedro do Atacama, Joel relata um dos pontos altos da viagem. Após a negativa da polícia ao pedido para se apresentarem na rua, ele lembrou de um bar que conheceu na viagem realizada em 2013. “Falamos com a dona e ela nos liberou e à noite já tocamos. Foi incrível, o pessoal todo gostou e conseguimos uma arrecadação legal para dar sequência à viagem”, diz. Após, eles seguiram viagem e já saindo do Chile, passaram por Passo de Jama. “Foi um dos lugares mais bonitos da viagem, mas muito difícil, por ser alto. Nossa van parou umas cinco vezes porque aquecia o motor. Chegamos pensar em voltar, ficamos apreensivos porque tínhamos em determinado ponto mais de 20 km de subida e não sabíamos se o veículo aguentaria. Além disso, a noite era muito fria. Por sorte, conseguimos e, no meio da tarde chegamos no topo e depois a viagem alinhou”, recorda.
De volta à Argentina e ao Brasil
Após passar pela aduana do Chile para Argentina, os músicos passaram ainda por Tílcara, em Jujuy; Joaquín Víctor González, em Salta; Santiago Del Estero; Chaco e Ituzaingó, em Corrientes, no solo argentino. “Antes de chegarmos em Corrientes, tivemos outro momento difícil. “A Polícia correu atrás da gente alegando que teríamos feito uma ultrapassagem perigosa. Depois nos levaram até a delegacia prestar esclarecimentos. Lá, queriam que pagássemos uma multa altíssima que, por estarmos no fim da viagem, não tínhamos. Além disso nos pressionavam dando a entender que queriam que pagássemos propina. Nos ameaçaram dizendo que nos deixariam presos. Tentamos argumentar que chamaríamos o consulado e depois de muita discussão eles perceberam que não iríamos ceder. Viram que tínhamos nossos instrumentos e acabaram nos pedindo para tocar nossas músicas até que acabaram nos liberando”, lembra Joel. No dia seguinte os jovens atravessaram a fronteira de volta ao Brasil e finalizaram a expedição com uma apresentação no festival de música independente, Psicodália, em Rio Negrinho, SC.
Valorização musical
Para Joel, o que mais chamou a atenção durante toda a viagem, além das paisagens exuberantes e das diferenças climáticas, foi a valorização musical nos locais onde o grupo se apresentou. “Quando saímos de Erechim, pensávamos pequeno, planejando tocar nas ruas, arrecadando moedas. Acabamos tendo chances em lugares muito badalados em cidades turísticas e conseguimos mostrar nosso trabalho que foi muito bem recebido. Isso nos mostrou que há muita valorização tanto cultural quanto financeira”, avalia.
Durante as apresentações do grupo, as pessoas sentavam-se nas mesas para prestar atenção. “Ficamos muito surpresos, pois começávamos a tocar e as pessoas paravam de conversar, sentavam para prestar atenção e realmente aproveitar aquele momento. Isso foi o que mais nos impressionou e é o que nos decepciona quando voltamos pra casa, pois as questões culturais e de arte são completamente diferentes”, pontua.
Outro ponto que ele destaca é em relação aos pedidos feitos nos locais onde tocaram. “Levamos repertórios nossos, mas também músicas brasileiras. A aceitação pela nossa música própria e pela música do Brasil foi muito grande. O retorno financeiro também foi supreendente, pois conseguimos em pouco mais de duas semanas de viagem arrecadar quase o valor total que sofremos três meses na região tocando para conseguir. Foi gratificante saber que dá para fazer isso e ver o nosso trabalho valorizado não apenas financeira, mas principalmente culturalmente”, ressalta.
Dificuldades e aprendizado
O músico ressaltou ainda que o grupo adquiriu grande experiência em acampamentos durante a expedição. “Aprendemos bastante como acampar, o quanto isso economiza, além da experiência de se virar para fazer nossas coisas sem as facilidades de um hotel por exemplo. Passamos frio, passamos por dificuldades relacionadas às condições climáticas e até sem banho precisamos ficar por alguns dias. Mas foram percalços que valeram a pena pelas experiências e pelas histórias que agora podemos contar”, revela.
Toda a expedição foi registrada com fotos e vídeos e deve se tornar um documentário. Embora sem data definida para lançamento, o projeto tentará mostrar a música nos locais onde o grupo visitou bem como as trocas de experiências realizadas durante toda a viagem.
